Thomaz Cocchiarali Bellucci surgiu como uma promessa no tênis brasileiro. Excessivamente tímido, o paulista de Tietê, residente de São Paulo, sofreu duas contusões sérias no início da carreira e, na volta, gerou boas expectativas. Em janeiro de 2008, quando fui cobrir o Aberto de São Paulo, fui alertado de que aquele garoto que estava na quadra principal seria um baita jogador, de nível top 10.
O excesso de cobranças para um cara que não era do tipo que curte badalação e não é despojado como Guga e Meligeni (os perfis mais conhecidos do público brasileiro) atrapalhou o seu primeiro ano como profissional no circuito ATP. Ele ganhou o Challenger de Florianópolis, último torneio disputado por Kuerten no Brasil e estreou em Roland Garros na quadra central contra Rafael Nadal. O torneio foi o que marcou a saída definitiva de Gustavo Kuerten do tênis. Ou seja, mais um rótulo de esperança pós-Guga é colocada sobre a cabeça de Bellucci.
A temporada de 2008 marcou uma bela estilingada de Bellucci. Ele começou o ano como 202º do mundo e terminou com a 85ª posição no ranking da ATP. Isso após ter sido 67º, posição que não foi mantida devido aos maus resultados em um calendário complicado, em que poucas vezes se acovardou para os challengers. Mas Bellucci entendeu a coisa de outro jeito, dispensou o técnico Léo Azevedo e contratou João Zwetsch, que foi o 231º tenista do mundo em 1991.
Os resultados com o novo técnico, quando Bellucci quis continuar encarando pedreiras em torneios ATPs, foram decepcionantes até que ele conseguiu uma bela campanha no Brasil Open, quando alcançou a final, mas deixou o título escapar. Guga estava na plateia e Bellucci estava destacado em jornais e revistas nos dias seguintes, novamente como o cara que poderia substituir Guga.
Sabe o que aconteceu novamente com tanta badalação? Nas semanas seguintes, Bellucci fez campanhas pífias. E quando partiu para a temporada de saibro europeia, onde poderia conquistar bons resultados, perdeu tudo. Em Roland Garros, sua estreia era bem mais fácil que a de 2008, desta vez tinha Martin Vassallo-Arguello pela frente e quando se recuperava de um set perdido, veio o abandono por cãimbras.
Em Gstaad (SUI), torneio em que entrou sem pressão ou badalação, uma vez que o seu ranking era de número 119 e ele precisou jogar o qualifying. Até mesmo a vitória sobre Stanislas Wawrinka (cabeça 1 do torneio) foi capaz de diminuir a desconfiança de alguns. Mas Bellucci teve competência e sorte para vencer seu primeiro ATP da carreira aos 21 anos, diferentemente da maioria dos tenistas brasileiros que tiveram destaque no circuito após os 25 anos (Guga é excessão, sempre).
O que dá para esperar de Bellucci após a conquista? Primeiro. Ele não é um fenômeno do esporte e nem vai ser, então, já está na hora de acabar a comparação com Gustavo Kuerten. Ele é diferente e continuará sendo mesmo que chegue à liderança do ranking, o que acho que não ocorrerá. O Thomaz na dele, jogando sem ser excessivamente exposto é capaz de ganhar outros torneios, vencer jogadores top 20 e até top 10, mas não está pronto para um Masters 1000 ou um Grand Slam.
Já o Thomaz badalado pode voltar a oscilar e perder partidas para tenistas que ficam fora do top 200. O que todos precisam entender é que ele é um cara bem diferente do que o público brasileiro está acostumado e isso atrapalha um pouco. O problema é que o público brasileiro está acostumado a achar que o título é "nosso", sem que qualquer um de nós tenha ajudado em alguma coisa. Coisa de dirigentes e imprensa populista. Bellucci provavelmente terá espaço em programa esportivo de TV nesta segunda-feira, mesmo com a emissora que detém boa parte dos direitos de transmissão de partidas de tênis optar pela exibição apenas em canal pago. Ou seja, do esporte eles querem apenas sugar os louros.